Unimed desembolsa R$ 2,5 milhões em polêmica com empresa de delegados da PF!
Uma empresa de consultoria, formada por dois delegados da Polícia Federal, recebeu R$ 2,5 milhões da Unimed Cuiabá para realizar relatórios sobre a gestão anterior e prestar serviços na área de compliance. Esses trabalhos levaram a uma operação da PF e do Ministério Público Federal, iniciada em 2024, que investigou diretores de uma chapa opositora à gestão que contratou a consultoria.
Rodrigo Piovesano Bartolamei, um dos delegados sócios, foi superintendente da PF em São Paulo e chefe da Interpol no Brasil, ocupando altos cargos durante os governos de Jair Bolsonaro e Michel Temer.
Em resposta a questionamentos, os delegados alegaram que suas atividades foram legalmente autorizadas e realizadas durante licenças da PF, sem contato com autoridades para tratar de interesses do plano de saúde. Eles enfatizaram que seu papel foi exclusivamente relacionado à implementação de práticas de compliance.
A Trinity Consultoria, cujos contratos com a Unimed iniciaram em abril de 2023 e se estenderão até março de 2025, tinha como objetivo realizar diagnósticos e revisões de processos para a nova gestão do plano de saúde, que conta com 201 mil beneficiários. A atuação da consultoria supostamente ajudou a descobrir um esquema envolvendo documentos falsos na gestão anterior.
Os contratos iniciais começaram em R$ 87 mil mensais, aumentando para R$ 135 mil. Além disso, um segundo contrato previu “honorários de êxito”, implicando pagamentos adicionais se a Unimed conseguisse recuperar valores desviados. Os sócios mencionaram que, até o momento, não receberam pagamentos referentes a esse segundo contrato.
Os proprietários da Trinity, Bartolamei e Carlos Eduardo Fistarol, este último ex-delegado que se desligou da ativa em 2024, possuem 98% das quotas da empresa, enquanto os 2% restantes pertencem à esposa de Fistarol, servidora do Tribunal de Justiça de Santa Catarina.
Um ofício da direção da Unimed, datado de março de 2024, confirma que os trabalhos realizados pela Trinity foram fundamentais para responsabilizar antigos gestores, resultando na operação Bilanz da PF e em ações judiciais. Essa operação, que ganhou destaque em Mato Grosso, foi desencadeada em outubro de 2024, um ano e meio após a contratação da consultoria.
O MPF denunciou vários ex-diretores, incluindo o ex-presidente Rubens Carlos de Oliveira Junior, alegando ocultação de um prejuízo de R$ 400 milhões na gestão anterior. O juiz da 5ª Vara Federal de Cuiabá permitiu que novos gestores atuassem como assistentes de acusação.
Em um momento crucial, a Unimed e a Trinity assinaram um novo contrato em novembro de 2024, que estabelece uma taxa de 9% sobre valores recuperados, reduzindo para 4% em valores acima de R$ 45 milhões.
Apesar do sucesso da consultoria em identificar irregularidades, questões surgem em relação à ética da participação de policiais em atividades empresariais, especialmente em áreas que envolvem investigações.
A Trinity Consultoria foi criada em abril de 2023, e logo após, firmou contrato com a Unimed. Bartolamei e Fistarol negam qualquer relação política com a gestão anterior ou conflito de interesses, afirmando que seus trabalhos estavam dentro da legalidade.
O contrato da Trinity com a Unimed não foi renovado em 2025, mas os diretores consideraram necessário continuar com a consultoria. No entanto, a Trinity deverá receber o pagamento relacionado aos honorários de êxito.
Em suma, a contratação de uma consultoria por uma cooperativa de saúde, especialmente com a participação de delegados, levanta questões sobre a ética e a legalidade na intersecção entre funções públicas e atividades privadas, gerando debates sobre a integridade e a governança no setor de saúde.